A fúria das águas: Acidentes forçaram Matte Larangeira a ampliar sua linha férrea

02set2020

O ano era 1917. A Companhia Matte Laranjeira inaugurava sua estrada de ferro que ligava Guaíra a Salto Carapã, localidade que foi engolida pelo lago de Itaipu. O objetivo era superar o obstáculo que Sete Quedas oferecia às embarcações que levavam erva-mate e aos navios que vinham de Buenos Aires trazendo mantimentos da capital argentina para a pequena vila Guaíra, cravada em plena selva.

As sacas de erva-mate desciam por roldanas de uma altura de 60 metros até as pequenas embarcações. De lá eram levadas até Portón (depois rebatizada de Porto Mendes) e embarcadas em chatas, rebocadas por grandes navios até Buenos Aires.

Em seu livro Guaíra Guahyrá, Hortência Zeballos Muntoreanu relata que em Salto Carapã os danos foram muitos, devido aos grandes redemoinhos e forte correnteza, ainda no embalo das maiores cachoeiras do mundo.

Ali, morreram muitos mensus (trabalhadores braçais, em sua maioria paraguaios). “Quando um deles caía na água, todos pensavam: menos um companheiro”,  escreveu Hortência.

Os acidentes continuaram, até que duas embarcações carregadas foram engolidas pelo rio Paraná sem deixar vestígios. Numa delas morreram 14 homens e na outra outros 17.

Devido aos acidentes, a Mate Laranjeira resolveu construir mais 15 km, finalmente ligando Guaíra a Portón. O novo trecho ficou pronto em 1923. No quilômetro 25, havia um importante entreposto, chamado Zororó, atual Oliveira Castro.

Quatro trens a vapor faziam o trajeto em quatro horas. O primeiro trem, Piquiri, era o menor. Os outros eram designadas por números: 6, 8, e o famoso 4, única herança da época e que está exposto na praça Eurico Gaspar Dutra, além do número 9, o maior deles e que funcionava a gasolina.

A gasolina, aliás, era importada. Vinha da argentina em caixas, uma vez que não existia estrada ligando Guaíra ao resto do estado, que dirá posto de gasolina. O acesso a Guaíra era feito por embarcações (vindos da Argentina e do Estado de São Paulo, pelo baixo Paraná e pelo alto Paraná, respectivamente) e também pela via aérea.

Ainda segundo o livro de Hortência, Antonio Ripar, tocador de viola da época, fez duas músicas em homenagem a seus companheiros. Uma delas se perdeu no tempo e outra foi reproduzida na obra publicada em 1992.

Expresso 44 reproduz aqui a canção que pode ser a mais antiga de que se tem registro em Guaíra.

Adiós Compañeros

Sobre la ola soy recorrido

La nueva imagen del Paraná

Viene buscando su desembarque

El torrentoso salto Guahyrá

El tarefeiro com su raído

Es prevenido de trabajar la yerba virgen

Donde se saca donde trabaja

El que cumple com su trabajo

Em el momento de apreciar há de gozar

Las peripécias de los tormentos

Del canoero que ya pasó

El que cumple com su trabajo

Su destino nortea

Al tarefero Pedro Brillantes

Por su altivez lo llevaron

Parada final el mar

Cercano del famoso Salto Guahyrá

El tarefero com su raído

Es prevenido de trabajar

Com el cuidado de los yerbales

En el momento de sapecar

Y la lanchita llamada Abuelito

Se va a pique al anochecer

Adiós peones y capataces

Los encargados de Larangeira

En el famoso salto Guahyrá

Y la cadena de desembarque

Bajo el cerro salto Guahyrá

De Puerto Mendes sigue el caminho

Al acampamento de Tapiraquá

Siguen los índios com su cacique

Van a conocer Salto Guahyrá

El trencito cuando conduce

De Monjoli a Zororó

Cuando vagones vienen llenos de yerba

Cuando funciona entre los dos

Adiós cadena de desembarque

Voy a conocer salto Guahyrá

El remolino mas peligroso

Que se llama Carapã

El remolino del que no me acuerdo

Los tripulantes han de saber

Por Cristian Aguazo