A história da Igrejinha de Pedra revista e revisitada

No ano de 2011, para comemorar os 60 anos de emancipação política, o Município de Guaíra encomendou uma arte que representasse a imagem da cidade. Fellipe Rangel, então servidor municipal, baseou sua escolha em dois ícones: a Igrejinha de Pedra e a Ponte Ayrton Senna.

Antes, numa enquete, a Assessoria de Imprensa da época havia elencado alternativas para saber qual era o símbolo preferido dos guairenses. Para a surpresa de alguns, a vitória ficou com a famosa igrejinha.

Mas qual a origem da lendária capela? Contar essa história parece fácil, mas não é. Isso porque, a exemplo de muitos outros pontos turísticos, Guaíra documenta pouco de sua história e as versões orais vão se contradizendo umas às outras.

Duas versões já foram amplamente difundidas. A primeira afirma que a capela é herança dos padres jesuítas que fundaram na Idade Média a Ciudad Real del Guahyrá. A informação, no entanto, é esdrúxula. Não há sequer um relato escrito que comprove tal afirmação e geograficamente há um erro crasso, pois a Ciudad Real foi erguida na confluência entre os rios Piquiri e Paraná, numa área que hoje pertence ao município de Terra Roxa.

A segunda versão é a mais famosa e está escrita na obra de Hortência Zeballos Muntureanu, que no ano de 1992 escreveu o livro Guaíra Guahyrá, baseada em suas memórias e no relato oral de pessoas “da época da Matte Larangeira”.

A história, difundida pelos guias turísticos, é linda. De acordo com esta variante, a igreja foi construída como uma promessa da viúva de Otto Rohde, administrador da Matte em Guaíra. Otto veio da Argentina e substituiu Wilson Sidwell, engenheiro americano responsável por algumas das mais notáveis obras da cidade. De hábitos sofisticados, Rohde pilotava o próprio avião, o Rumbeador. Num destes voos, acabou perdendo a vida num acidente. A viúva havia feito uma promessa de que construiria uma igreja se o corpo do marido fosse encontrado. Tempos depois, o corpo foi localizado e a Companhia e a viúva construíram a igrejinha. O povo, comovido, colaborou. Em procissão, carregaram pedras de Sete Quedas até o local escolhido para a edificação do santuário.

Segundo Hortência, o mestre de obras foi Sammer, que teve como auxiliares Alfonso Hermosilla e um senhor conhecido na época como Rubio a La Doze. A obra, que é bem escrita e traz informações e fotos valiosíssimas, informa que a igreja foi inaugurada em 1933.

A realidade é menos bela

De fato, a igreja começou a ser construída em 1933, mas só foi inaugurada no dia 11 de novembro de 1934. Teve como primeiro nome Capela São Francisco, sendo rebatizada depois como Capela Nuestro Señor del Perdón. Segundo fontes orais, como forma de pedir perdão ao extermínio indígena, como registra outro pesquisador, o professor Omar Fedato Aleksiejuk, que trabalhou em Guaíra no IBGE e reside hoje em Curitiba, no seu livro “Esta Terra Tem Dono”.

Mas, a julgar pela Ata de Fundação da Igreja, a capela foi abençoada pelo monsenhor Guilherme Maria Tchiletzeck A. Cholde, com a presença de Laurinda Murtinho Santos Lobo e Dom Ricardo Mendes Gonçalves, que foram paraninfos. Também assina a ata e é mencionado na mesma o administrador do Porto Guaíra, senhor Otto Rohde.

Este administrador, Otto Rohde, de fato faleceu num desastre aéreo, mas no ano de 1939, portanto depois da inauguração da igrejinha, o que contradiz a versão oral de sua criação.

A memória é uma ilha de edição. É sempre uma reconstrução. O objetivo desta matéria não é colocar em xeque nem desmerecer a versão popular, posto que ela também revela a dimensão opaca da história, essa ciência humana, demasiada humana.

A literatura recria versões da história. O romantismo atrai mais que a realidade. Os seres humanos significam e ressignificam. Nada impede que a versão popular seja contada, passada adiante enquanto folclore local.

Mas trazer à tona versões documentadas é também o papel da comunicação social.

Cristian Aguazo