Ciclista está percorrendo todas as bases náuticas da região lindeira

Há seis anos, Ana Martha de Oliveira Gonçalves tomou uma decisão: largou o cigarro e adquiriu uma bicicleta. Por mais simples que pareça, uma decisão como essa tem dimensões superlativas na vida de uma pessoa.

Dez quilos a menos e disposta a mudar outros hábitos, Ana Martha só foi mergulhando cada vez mais no universo das bikes. Hoje, além de ir ao trabalho de bicicleta, ela também faz parte de um grupo de ciclistas na capital e está na região para cumprir um objetivo que traçou há meses: percorrer todas as bases náuticas, de Guaíra a Foz do Iguaçu.

A escolha das bases náuticas como balizas de seu trajeto não ocorreu por acaso. Ana é nascida em Foz do Iguaçu e tem uma ligação emocional com as bases náuticas, que foram construídas em 1997, durante o governo Jaime Lerner, para os Jogos Mundiais na Natureza, competição internacional criada para aproveitar a orla do lago e divulgar o turismo da região. “Eu tinha 12 anos quando ocorreram os Jogos Mundiais da Natureza. Minha mãe ajudou na organização. Lembro que até o Pelé esteve no evento, que reuniu atletas de vários países”, recorda.

O evento foi tão marcante, que anos depois Ana fez seu TCC (trabalho de conclusão de curso) em arquitetura propondo a revitalização da base náutica de Foz e analisando as seis bases náuticas construídas em municípios lindeiros. “Elas são de arquitetura vernacular, que utiliza materiais locais”, explica.

Nestas férias, Ana está colocando em prática seu projeto. Saiu de Foz, onde moram seus pais, com destino a Cascavel. De lá, seguiu para Assis Chateaubriand visitar uma amiga. E de Assis, pedalou até Guaíra, iniciando sua aventura em duas rodas. “O calor castiga, estou fazendo tudo sozinha, mas a teimosia é maior que o medo”, revela.

Em Guaíra, ela está hospedada na casa do servidor federal Henrique Delucca. Os dois se conectaram via couchsurfing, uma rede social que faz a ponte entre turistas que querem hospedagem grátis durante uma viagem e pessoas que gostariam de receber esses visitantes. “Eu recebo muita gente e também faço uso quando vou viajar. Este ano, já recebi um americano, argentinos e colombianos. Receber a Ana tem sido um prazer, achei bem interessante o projeto dela”, comentou Delucca.

Esta é a primeira vez de Ana em Guaíra. “Eu não conhecia, tô gostando muito. Tirei fotos no farol, fui bem recebida pelo pessoal da Secretaria de Turismo”, afirmou.

A Base Náutica de Guaíra é, na avaliação da ciclista, a mais bonita de todas. E também a mais conservada. “Todas as outras estão em situação crítica, o que é uma pena”.

A conservação da base náutica guairense tem dois motivos: o primeiro é que ela foi usada como sede da Secretaria de Turismo, o que exigiu manutenção constante. Depois, foi cedida para o NEPOM (Núcleo Especializado de Polícia Marítima da Polícia Federal).

O NEPOM, porém, está de mudança para a nova delegacia que já está pronta. “Tomara que a prefeitura consiga dar um bom destino para este espaço”, aponta Ana.

Hoje, quinta, 20 de dezembro, Ana pedala até Porto Mendes, distrito de Marechal Cândido Rondon, onde outra base náutica a espera. De Porto Mendes, ela segue para Santa Helena. De lá, para Itaipulândia. O roteiro chega ao fim na viagem de Itaipulândia para Foz do Iguaçu.

Durante as seis etapas, ela vai registrando tudo no seu Instagram (aninha_foz). O projeto da aventureira já está chamando a atenção. Um deputado federal gostou do projeto. “Fiquei sabendo que já existe um circuito de cicloturismo na região lindeira, com apoio direto da Itaipu. Muito legal. Inserir as bases náuticas neste roteiro só vai enriquecer. Inclusive elas podem servir de base fixa para estes ciclistas”, diz.

Sim, podem. O que não pode é desperdiçar um patrimônio público, que na maioria dos municípios foi utilizado apenas uma vez, há mais de 20 anos.

Com o exemplo de quem se importa, Ana Martha deixa seu recado: é preciso dar o exemplo, sugerir alternativas, valorizar a memória, sair da cadeira, fazer algo na prática. Afinal, teoria e prática não devem ser coisas que andam separadas. Elas devem pedalar juntas.

Redação Expresso 44.