Guaíra, nascida sob o signo da água

Muito antes dos europeus registrarem, mapearem e difundirem os formidáveis recursos naturais da América, outras civilizações já desfrutavam destes imensos recursos vitais.

Os índios guarani, por  exemplo, não só conheciam bem o terreno por onde andavam, como davam nomes bastante reveladores para tudo. Basta citar que Paraná, nome que batiza o nosso estado e o rio que aciona a maior usina geradora de energia hidrelétrica do mundo, significa “tão grande quanto o mar”.

A abundância em água doce não impressiona só os índios que se espalham da Amazônia aos pampas gaúchos. Os números impressionam pesquisadores do mundo todo. Para que se tenha uma ideia, no território brasileiro encontram-se 11,6% de toda a água doce do planeta. Os recursos hídricos são, sem dúvida, um dos bens mais preciosos do país. Não é à toa que o Brasil é identificado como a potência hídrica do século XXI.

Guaíra também leva essa relação com as águas no superlativo. A antiga e extinta Ciudad Real del Guairá, “ancestral” da Guaíra de hoje, não foi fundada por acaso na foz entre o Piquiri e Paranazão. Água é sobrevivência.

Séculos depois, quando a Companhia Mate Laranjeira resolveu fundar o Porto Mojoli, mais tarde rebatizado de Porto Guaíra, o principal motivo foi justamente a capacidade hídrica e a localização estratégica: por Guaíra, a erva-mate bruta seguia via rio Paraná até Buenos Aires, na Argentina, onde era industrializada.

A Companhia, aliás, construiu a base da cidade já com rede de esgoto, numa época em que saneamento básico não era uma exigência da lei. Até hoje a questão do saneamento é ainda uma dificuldade para muita gente. A cidade de Marechal Cândido Rondon, por exemplo, não possui rede de esgoto. E Guaíra, em toda a região, possui um dos melhores índices, com quase toda a cidade abastecida com rede de esgoto.

Apesar de contar com o grandioso rio Paraná e outros 13 rios que cortam o município (Taturi, Xororó, Cruz de Malta, Birigui, Salamanca, Caximbeiro, Sabiá, Verde, Corumbeí, Água Verde, Diamantino, Guarani e Jacutinga), a água consumida na cidade não vem dos rios, mas de seus 14 poços artesianos que abastecem a cidade. Além dos rios, muitos córregos também irrigam a cidade. Fazem parte desta lista os córregos do Meio, da Onça, dos Porcos, do Cavalo Morto e da Lua.

 

Como se não bastasse tanta relação com a água, Guaíra se encontra dentro do chamado Aquífero Guarani, uma verdadeira fonte que se esconde nas profundezas. Trata-se da maior reserva de água doce do mundo: uma mega poça d´água que corta sete estados brasileiros e se estende por três países vizinhos, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai.

Nomeado em homenagem ao povo guarani, tem uma espessura média de 250 metros e um volume de aproximadamente 45 000 km³. A profundidade máxima é por volta de 1 500 metros. Dizem que esta vasta reserva subterrânea pode fornecer água potável ao mundo por duzentos anos e por isso o debate em torno do aquífero tem entrado na pauta política nacional e internacional. Reza a lenda que grandes corporações, como Nestlé e Coca-Cola, manifestaram interesse em adquirir os direitos de exploração do Aquífero. Quem duvida?

De fato, os cientistas alertam que a água será um item disputado no futuro se não houver o uso sustentável por parte da humanidade. Mesmo no Brasil. Há poucos anos, São Paulo viu a falta de abastecimento comprometer a vida de milhões de pessoas. Com água não se brinca.

O equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos. E em tempos em que já falta água em várias regiões, é importante ter a consciência da importância do uso sustentável.

Caminho das Águas

O turismo em Guaíra sempre teve relação com a água. Se no passado eram as Sete Quedas, hoje são a pesca e os passeios de barco algumas de suas principais atrações. Aliás, não só Guaíra. Os municípios lindeiros ao lago de Itaipu são parceiros em um projeto que busca desenvolver o turismo integrado e sustentável da região. O projeto, denominado “Caminhos do Turismo Integrado ao Lago de Itaipu”, possibilita ao turista que visita Foz do Iguaçu conhecer roteiros alternativos de viagem junto aos municípios banhados pelo lago. Os roteiros disponíveis incluem atrativos e empreendimentos relacionados à água, como passeios de barco e outras atividades náuticas.

Fazem parte deste roteiro integrado 15 municípios do Paraná: Foz do Iguaçu, Santa Terezinha de Itaipu, São Miguel do Iguaçu, Medianeira, Itaipulândia, Missal, Diamante do Oeste, Santa Helena, São José das Palmeiras, Entre Rios do Oeste, Pato Bragado, Marechal Cândido Rondon, Mercedes, Terra Roxa e Guaíra, e um município no Mato Grosso do Sul – Mundo Novo.

Por Cristian E. Aguazo
Foto: Murilo Siton